sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

São Juan Diego Cuauhtlatoatzin


“É com grande alegria que fiz a peregrinação até esta Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe, coração mariano do México e da América, para proclamar a santidade de Juan Diego Cuauhtlatoatzin, o índio simples e humilde que contemplou o rosto dócil e sereno da Virgem de Tepeyac, tão querido a todas as populações do México.


Como era Juan Diego? Por que motivo Deus fixou o seu olhar nele? Como acabamos de escutar, o livro do Eclesiástico ensina-nos que somente "Deus é todo-poderoso e apenas os humildes o glorificam". Inclusivamente as palavras de São Paulo, também proclamadas durante esta celebração, iluminam esta maneira divina de realizar a salvação:  "Deus escolheu aquilo que o mundo despreza [e que é insignificante]. Deste modo, nenhuma criatura se pode orgulhar na presença de Deus".

É comovedor ler as narrações guadalupanas, escritas com delicadeza e repletas de ternura. Nelas, a Virgem Maria, a escrava "que proclama a grandeza do Senhor" (Lc 1, 46), manifesta-se a Juan Diego como a Mãe do Deus verdadeiro. Ela entrega-lhe, como sinal, um ramalhete de rosas preciosas e ele, mostrando-as ao Bispo, descobre gravada no seu manto ("tilma") a imagem abençoada de Nossa Senhora.

"O acontecimento guadalupano como afirmaram os membros da Conferência Episcopal Mexicana significou o começo da evangelização, com uma vitalidade que ultrapassou qualquer expectativa. A mensagem de Cristo através da sua Mãe assumiu os elementos centrais da cultura indígena, purificou-os e atribuiu-lhes o definitivo sentido de salvação". Desta maneira, Guadalupe e Juan Diego possuem um profundo sentido eclesial e missionário, e constituem um paradigma de evangelização perfeitamente inculturada.

Com o salmista, acabamos de recitar: "Do céu, o Senhor contempla e vê todos os homens”, professando uma vez mais a nossa fé em Deus, que não considera as diferenças de raça ou de cultura. Ao acolher a mensagem cristã, sem renunciar à sua identidade indígena, Juan Diego descobriu a profunda verdade da nova humanidade, em que todos são chamados a ser filhos de Deus em Cristo. 

Desta forma, facilitou o encontro fecundo de dois mundos e transformou-se num protagonista da nova identidade mexicana, intimamente vinculada a Nossa Senhora de Guadalupe, cujo rosto mestiço dá expressão da sua maternidade espiritual que abarca todos os mexicanos. 
Por isso, o testemunho da sua vida deve continuar a dar impulso à edificação da Nação mexicana, a promover a fraternidade entre todos os seus filhos e a favorecer cada vez mais a reconciliação do México com as suas origens, os seus valores e as suas tradições.
Amados Irmãos e Irmãs de todas as etnias do México e da América, ao exaltar neste dia a figura do índio Juan Diego, desejo expressar-vos a proximidade da Igreja e do Papa em relação a todos vós, enquanto vos abraço com amor e vos animo a ultrapassar com esperança as difíceis situações por que estais a passar”.


Papa João Paulo II - Homilia de Canonização de Juan Diego - 31/07/2002


São Juan Diego Cuauhtlatoatzin (que significa: o que fala como águia) nasceu em torno de 1474, em Cuauhtitlán, que pertencia ao reino de Textcoco, no México.
                                                
Existem documentos eclesiásticos, datados do século XVI, que fazem parte de importante processo canônico, onde já se pedia aprovação para celebração da festa de Nossa Senhora do Guadalupe nos dias 12 de dezembro. Posteriormente aprovado e já constituído o Processo Apostólico, constam nestes documentos importantes testemunhos de anciãos (alguns com mais de cem anos de idade), que testificaram e confirmaram a vida exemplar, personalidade e fama da santidade de Juan Diego:
"Era um índio que vivia honesta e recolhidamente e que era muito bom cristão, temente a Deus e, sua consciência, arraigada de muitos bons costumes e modos de proceder";  
outro testemunho é o de Andrés Juan, que dizia que Juan Diego era um
"varão santo". Diversos outros testemunhos contidos naquelas informações jurídicas atestam que, efetivamente, Juan Diego era para o povo "um índio bom e cristão", ou um "varão santo" e somente estes títulos bastariam para entender a fortaleza de sua fama; pois os índios eram muito exigentes para atribuir algum membro da tribo pelo apelativo de "bom índio" e muito menos ainda considerar sua bondade tão expressiva que pudesse a chegar ao extremo da santidade.
                                                
Graças às fontes históricas pudemos conhecer as circunstâncias da vida de São Juan Diego, sua família, suas casas, suas terras;  foi em dezembro de 1531 que Nossa Senhora do Guadalupe manifestou-se extraordinariamente a Juan Diego. Na época era um homem já maduro, porém, batizado há muito pouco tempo pelos primeiros missionários franciscanos, e pertencia a etnia indígena dos "chichimecas de Texcoco".
A evangelização pós conquista iniciava-se lentamente na região, de forma que Juan Diego há poucos anos se havia convertido e batizado na fé católica. Havia sido casado com uma índia chamada Maria Luzia e nesse tempo viviam no povoado de Tulpetlac, com seu tio Juan Bernardino.

No dia 09 de dezembro de 1531 (sábado), muito cedo, Juan Diego se dirigiu à Missa sabatina da Virgem Maria e ao catecismo, atendidas pelos franciscanos do primeiro convento que havia sido erigido na Cidade do México.
                                                
Quando o humilde índio chegou ao sopé do monte chamado Tepeyac, repentinamente escutou cantos harmoniosos e doces que vinham do alto do cerro, e que mais pareciam cantos de aves distintas, que respondiam umas às outras, formando um concerto de extraordinária beleza. Observou uma nuvem branca e resplandecente e que se alcançava a distinguir um maravilhoso arco-íris de diversas cores. Absorto por tamanha beleza, fez para si diversas indagações, imaginando inclusive estar sonhando, de estar presenciando o paraíso. Estando neste arrebatamento, repentinamente tudo cessou, ouvindo apenas a voz de uma mulher doce e delicada, que chamava por seu nome:

"Juanito, Juan Dieguito!".
Sem vacilar, o santo índio sobe o cerro e depara-se com uma formosíssima donzela; aproximando-se, deu conta, com grande assombro da formosura de seu rosto, de sua perfeita beleza, de seu vestido, reluzente como o sol. Nossa Senhora dialoga com Juan Diego e lhe manifesta o pedido de que fosse construída uma capela naquele local. Disse que fosse até ao palácio do Bispo do México (Juan de Zumárraga) e lhe narrasse tudo o que vira e o seu pedido, de ver ali erigido um templo.
E fez ainda uma promessa a Juan Diego: “Tem por seguro que muito o agradecerei e o pagarei,  pelo que enriquecerei e te glorificarei; e muito mais merecerás com que eu retribua teu cansaço, teu serviço com que vás solicitar o assunto para o qual te envio"
                                                 
Dirigiu-se, assim, Juan Diego à Cidade do México, onde narrou tudo o que lhe ocorrera, mas ao que o Sr. bispo acabou não dando-lhe crédito, julgando ser imaginação do índio recém convertido, ainda que tenha sido submetido a interrogatório. Juan Diego saiu dali muito desconsolado, ora pelo descrédito, ora por não poder atender à vontade de Maria Santíssima.
                                               
Retornou ao local da aparição e, pela segunda vez, Nossa Senhora mandou que Juan Diego fosse ter com o bispo novamente e que lhe reafirmasse o pedido. Juan Diego despediu-se de Nossa Senhora, assegurando que no dia seguinte realizaria sua vontade, indo para casa descansar.
No dia seguintes (10 de dezembro), Juan Diego foi à Missa, assistiu à catequese e dali foi para a casa do bispo, onde os ajudantes o fizeram esperar por longo tempo, fato que já havia ocorrido na primeira visita. Ao entrar, Juan Diego aos prantos e entre lágrimas novamente comunicou a vontade de Nossa Senhora, certificando que tratava-se da vontade da Mãe de Deus que fosse construído o referido templo.
Desta vez o Bispo escutou com grande interesse a narrativa do índio, porém, começou a compreender que não podia ser que fosse apenas um sonho ou uma fantasia dele, pois contava com muita convicção o que presenciara, detalhando as mensagens de Nossa Senhora.
O bispo,  para certificar-se de tudo o que escutara de Juan Diego, pediu que lhe fosse dado um sinal. Juan Diego saiu dali e disse que falaria com Nossa Senhora e, pôs-se a caminho. Em seguida, o bispo mandou pessoas de sua inteira confiança para seguir e vigiar Juan Diego sem o perder de vista, a fim de saberem para onde se dirigia e com quem falava. Entretanto, após Juan Diego atravessar uma ponte, onde passava um rio, perderam-no de vista e, apesar dos esforços, não conseguiram mais encontrá-lo. Os serventes, já exaustos com o suceder dos acontecimentos, decidiram regressar ao bispo e lhe disseram que Juan Diego era um farsante enganador e mentiroso; sugeriram, inclusive, que Juan Diego deveria ser castigado caso retornasse para lhes importunar com a história.
                                               
Enquanto isso, Nossa Senhora aguardava Juan Diego. Chegando ao local, contou o que havia acontecido na casa do bispo, e que o mesmo  havia pedido um sinal para que pudesse dar crédito à sua mensagem. Maria Santíssima, agradecendo o empenho de seu mensageiro, pediu para que retornasse no dia seguinte (11 de dezembro), quando daria o sinal, solicitado pelo Bispo. Ocorre que Juan Diego não pôde retornar ao local no dia seguinte, pois seu tio Juan Bernardino, a quem amava como se fosse seu próprio pai, achava-se gravemente enfermo;  era portador de uma doença que os índios chamam Cocoliztli. Procurou por um médico, mas não conseguiu encontrar nenhum na cidade.
Era já madrugada de 12 de dezembro, quando o tio rogou ao sobrinho que se dirigisse ao Convento de Santiago, em Tlatelolco, para chamar um dos religiosos para confessar-se, uma vez que estava consciente de que lhe restava pouco tempo de vida. Juan Diego saiu para cumprir a vontade do moribundo e dirigiu-se com muita pressa ao convento. Chegando, porém , nas cercanias do sítio onde lhe apareceu Nossa Senhora, decidiu, na simplicidade de seu coração, que era-lhe melhor desviar o caminho, rodeando o cerro de Tepejac pela parte oriental, a fim de eventualmente não se entreter com Nossa Senhora, pois que queria chegar o mais breve possível no convento. Pensou consigo, que mais tarde voltaria para conversar com Ela sobre o sinal que iria pedir para levar ao Bispo.
                                               
Ocorre que nesse momento, Maria Santíssima desceu o monte e veio ao encontro de Juan Diego, com estas palavras: "O que se passa com o mais pequeno de meus filhos? Aonde você vai, para onde te diriges?".

E o índio, muito angustiado, conta-lhe as suas aflições, da grave enfermidade do tio amado, e a pressa em procurar-lhe um padre, pois que poucas horas de vida lhe restavam. Pediu diversas vezes perdão por não ter vindo no dia anterior, e que lhe tivesse um pouco de paciência, pois que retornaria com toda pressa logo que pusesse termo às ultimas necessidades do tio. Nossa Senhora ouviu com muito carinho as desculpas do índio e lhe compreendeu perfeitamente o grande momento de angústias, tristezas e preocupações que vivia Juan Diego, momento em que a Mãe de Deus lhe dirige as mais belas palavras, as quais lhe penetraram profundamente:
                                               
"Escuta, põe em teu coração, meu pequeno filho, que nada te assuste, que nada te aflija; que não se perturbe teu rosto, teu coração; não temas esta ou outra enfermidade ou aflição. Não estou aqui, eu que sou tua Mãe? Não estás debaixo de minha sombra e proteção? Não sou a fonte de tua alegria? Não estás sob o meu manto, na cruz dos meus braços? Tens necessidade de alguma outra coisa? Que nenhuma outra coisa te perturbe ou aflija; não te oprimas com a enfermidade de teu tio, porque ele não morrerá agora. Tenha certeza que ele já está bom".

Neste preciso momento, Maria Santíssima encontrou-se com o tio Juan Bernardino, restituindo-lhe a saúde, e disto conversaria posteriormente com Juan Diego. Já consolado com as palavras de Nossa Senhora, Juan Diego disse estar pronto para levar o sinal ao Bispo. A Virgem Santíssima, mandou que Juan Diego subisse ao cume do cerrilho, onde haviam se encontrado, e mandou que lá juntasse as mais variadas flores, mandando que logo descesse e que as trouxesse à sua presença. Ele sabia que no local só haviam abrolhos e espinhos, além do que o frio era intenso e naquele momento, geava. Mesmo assim, com toda a convicção subiu o cerro e quedou-se admirado diante do precioso jardim de lindas flores variadas, frescas, exalando um odor suavíssimo; e estendendo a tilma à maneira indígena, começou a cortar quantas flores pode, juntando-as todas sobre sua tilma. Desceu o monte e depositou as flores aos pés de Maria Santíssima. Ela tomou em suas mãos as flores e colocou-as novamente no vão da tilma e em seguida mandou que Juan Diego levasse o manto à presença do Bispo. Pediu que lhe contasse detalhadamente o que ocorrera naquele lugar.
                                                  
Juan Diego chegou a casa do bispo e suplicou ao porteiro e aos demais empregados que dissessem que desejava vê-lo; mas ninguém o quis fazê-lo; alguns fingiam que não o entendiam, outros alegavam que já era tarde da noite, e outros que não o conheciam e diziam que não mais os importunassem. Juan Diego esperou por muito tempo, de forma que os empregados, vendo que não saia dali, esperando que o chamassem, observaram que carregava algo em sua tilma e se aproximaram para ver o que trazia; Juan Diego acabou não podendo ocultar, pois os empurrões poderiam maltratar as flores, momento em que disse que abriria somente um pouquinho a tilma, e assim o fez. Neste momento, viram que eram flores, que desprendiam um perfume maravilhoso. E cada um queria tirar para si quantas pudessem e, por três vezes o tentaram, mas não puderam, porque quando concretizaram o intento, já não podiam mais ver as flores como viram, porque agora já a viam como se estivessem ora pintadas, ora bordadas, ora costuradas na tilma. Imediatamente foram dizer ao Bispo o que haviam testemunhado;  O bispo parecia compreender que Juan Diego portava a prova que havia pedido e mandou que ele entrasse.

Juan Diego, entrando, prostrou-se em sua presença, como já  havia feito antes, e contou o que ocorrera na  colina Tepejac, momento em que entregou o sinal de Maria Santíssima, estendendo sua tilma, caindo em solo as preciosas flores; e seu viu na tilma, admiravelmente pintada, a Imagem de Maria Santíssima, como ainda se vê hoje e se conserva no santuário de Guadalupe.

O bispo Zumárraga, junto com sua família e o servos que estavam ao seu redor, sentiram uma grande emoção, não podiam acreditar no que seus olhos estavam contemplando: Uma formosíssima imagem da Virgem Mãe de Deus, Senhora do Céu. O bispo, com pranto e tristeza, rogou e pediu perdão por não haver realizado sua vontade, sua palavra. Ao se colocar de pé, o bispo desatou da tilma o colo de Juan Diego e a colocou em seu oratório.
                                               
Mais tarde, a imagem foi levada com grande triunfo à grandiosa Igreja na colina de Tepejac, construída conforme o pedido da Virgem. 
                                               
Em 30 de julho de 2002 o Papa João Paulo II canonizou na Basílica de Guadalupe, na Cidade do México, Juan Diego, primeiro índio da América a se converter em santo, em uma cerimônia presenciada por milhares de indígenas.

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