segunda-feira, 4 de julho de 2016

Beata Maria Crucifixa Curcio



Ao servo preguiçoso e arrogante da parábola dos talentos contrapõe-se positivamente a figura feminina que é apresentada pelo livro dos Provérbios. Neste contexto insere-se convenientemente com o seu carisma materno e com o seu gênio feminino a beata Maria Crucifixa Curcio, mulher hábil e laboriosa, atenta a ocupar-se das necessidades do seu próximo, até o fazer tornar-se "a sua família". Também a Madre Maria Crucifixa soube "procurar para si a lã e o linho" e elaborá-los de boa vontade "com as suas mãos" para fazer crescer a família que Deus lhe confiou. Encontrou no Espírito do Carmelo, e muito concretamente no carisma contemplativo missionário de Santa Teresa do Menino Jesus o estímulo para fundar a congregação carmelita das Missionárias de Santa Teresa do Menino Jesus.
O amor a Jesus guiou-a por um caminho que muitas vezes foi difícil e amargo, fazendo-lhe experimentar o que significa ser "crucificada", como Jesus, por amor dos irmãos, sempre presentes nas suas atenções, também nos momentos de maior intimidade com Deus. Escrevia no seu Diário espiritual:  "A ideia de partir ao encontro dos meus irmãos enchia-me o coração de alegria... A minha ternura cresce sempre... e com esta ternura amo as filhas que a Providência me confiou, amo o mundo inteiro, amo a natureza com todas as belezas".
A Madre Maria Crucifixa foi uma mulher simples e forte, imbuída pelo amor de Deus, toda propensa para o céu, mas atenta a inclinar-se sobre a terra, em particular sobre a humanidade sofredora e necessitada. Ela soube haurir da sua fé profunda e do amor apaixonado à Eucaristia inspiração e alimento contínuo para a sua busca de santidade. A beata Madre Curcio soube conjugar, nos gestos ordinários da sua vida quotidiana, a oração com a ação, sendo esta última entendida como recuperação dos últimos, e mais precisamente, como acolhimento e formação da juventude mais abandonada. Precisamente por esta sua normalidade e concretude é um modelo no qual inspirar-se nos dias de hoje, porque a sua mensagem é de grande atualidade.
Cardeal José Saraiva Martins – Homilia de Beatificação – 13 de novembro de 2005

Maria Crucifixa Cúrcio, fundadora da Congregação das Irmãs Carmelitas Missionárias de Santa Teresa do Menino Jesus, nasceu em Íspica – Itália, em 30 de janeiro de 1877. Seus pais eram: Salvatore Cúrcio e Concetta Franzò. Sétima de dez filhos, transcorre a infância em um ambiente familiar culturalmente e socialmente elevado, manifestando logo uma inteligência vivaz, um caráter alegre, decidido e determinado, amadurecendo, nos primeiros anos da adolescência, uma elevada e notável tendência à piedade, atenção e solidariedade para com os mais fracos e marginalizados.

Em casa recebe uma severa educação, de rígidos princípios morais, em virtude dos quais o pai não só a limita em seu anseio de uma intensa vida de fé, mas, seguindo o costume da época, não lhe consente nem mesmo prosseguir os estudos, concluindo apenas a sexta série.
Esta privação lhe custou muito, mas, ávida de conhecimentos, busca conforto nos livros da biblioteca da família, onde encontra a Vida de Santa Teresa de Jesus. O confronto com esta Santa a faz conhecer e amar o Carmelo, conduzindo-a aos estudos das “coisas celestes”.
Em 1890, com a idade de 13 anos, não obstante as dificuldades, obtém a permissão para se inscrever na Ordem Terceira Carmelita, recentemente reconstituída em Íspica. Compreende os projetos divinos sobre ela na frequência assídua ao Santuário de Nossa Senhora do Carmo, onde cresce no conhecimento da espiritualidade carmelita, nutrindo uma intensa devoção à Mãe do Carmelo que lhe “havia raptado o coração desde a infância”, confiando-lhe a missão de “fazer reflorescer o Carmelo”. 

Querendo partilhar o ideal de um Carmelo Missionário que unisse a dimensão contemplativa com aquela especificamente apostólica, inicia uma primeira experiência de vida comum com algumas companheiras Terceiras, em um apartamentinho da casa paterna, colocado, enfim, à sua disposição pelos irmãos. Em seguida transfere-se para Módica, uma cidade vizinha, onde lhe foi confiada a direção do Conservatório “Carmela Polara”, para acolhida e assistência de meninas órfãs e necessitadas, na intenção de fazer delas “mulheres estimáveis, úteis a si e à sociedade”.
Depois de muitos anos de provas e tribulações na vã tentativas de ver a sua obra, de qualquer modo, sustentada e oficialmente reconhecida pela autoridade eclesiástica local, consegue finalmente encontrar apoio e partilha do seu ideal missionário em padre Lourenço van den Eerenbeemt, Carmelita da Antiga Observância. Indo a Roma no dia 17 de maio de 1925, para a canonização de Santa Teresa do Menino Jesus, no dia seguinte, acompanhada por Padre Lourenço, visita Santa Marinella, no litoral norte de Roma. Ficou profundamente emocionada com a beleza natural dessa região, mas também com a extrema pobreza da maioria dos seus habitantes. Compreende ter chegado finalmente ao porto. Tendo obtido a permissão oral para uma experiência, do bispo da diocese de Porto Santa Rufina, Cardeal Antonio Vico, em 3 de julho de 1925, se estabelece definitivamente em Santa Marinella e, no dia 16 seguinte, recebe o decreto de afiliação da sua pequena comunidade à Ordem Carmelita, selando assim para sempre a sua pertença à Maria, no Carmelo. 

Em 1930, depois de sofrimentos e cruzes, o seu pequeno grupo obtém o reconhecimento da Igreja com a ereção da Congregação das Irmãs Carmelitas Missionárias de Santa Teresa do Menino Jesus a Instituto de Direito Diocesano, por parte do bispo da diocese portuense, Cardeal Tommaso Pio Boggiani.
“Levar almas a Deus” é o objetivo que anima as suas múltiplas aberturas de obras educativas e assistenciais, na Itália e no exterior. Por isso exorta suas filhas a levar às famílias uma palavra de vida cristã. Pode realizar o seu desejo missionário em 1947 quando, sobre as cinzas da segunda guerra mundial, envia as quatro primeiras Irmãs ao Brasil, com a única recomendação de “não esquecer os pobres”, continuando a sonhar com horizontes sempre mais vastos, onde soltar as velas do seu Carmelo missionário.
Marcada por toda a vida com uma saúde precária, e pelo diabete, esforça-se em acolher sempre com fortaleza e serena adesão à vontade de Deus. Transcorre os últimos anos na enfermidade, continuando a rezar e a doar-se às suas Irmãs, para as quais oferece um precioso exemplo de virtude, sempre mais transparente e luminoso.
A sua oração é um diálogo íntimo e contínuo com Jesus, com o Pai e com todos os Bem-aventurados, inspirado pela confiança filial, amor esponsal, sentimentos de gratidão, louvor, adoração e reparação que procura transmitir, antes de tudo, com o exemplo de vida, às suas filhas espirituais e a todos que dela se aproximam, alimentando sempre “o desejo de ter filhas santas, filhas eucarísticas, filhas que sabem rezar”.

Cultiva intensamente a união de amor com Cristo na Eucaristia, empenhando-se inteiramente em satisfazer seu desejo de reparação “ao imenso número de almas que não conhecem e não amam a Deus”, oferecendo-se como vítima de expiação junto “com o grande Mártir do Amor”. Uma reparação que a faz capaz de partilhar as pena e os anseios dos homens e mulheres, atenta a todas as necessidades, com caridade e justiça, dando voz a quem não tem, contemplando o rosto do Crucificado naquele desfigurado de todo sofredor. Por isso, exorta as Irmãs a “amar santamente os tesouros que a bondade divina lhes confia, as almas jovens que são a esperança do amanhã” e a não se pouparem no serviço da juventude mais humilhada e abandonada – para “ tirá-las do meio da lama”, para restaurar em toda criatura a dignidade e a imagem de filho de Deus.
Com a Mãe de Jesus aprende a ser mãe daqueles que são necessitados. Com Santa Teresa do Menino Jesus encontra alegria espiritual “no assíduo e fiel cumprimento dos próprios deveres”, realizando “com amor e dedicação até mesmo as coisas mais insignificantes”. Vive com humildade, simplicidade, alegria e ternura as relações humanas, realizando cotidianamente a interação entre fé e vida, “no viver juntas tranquilamente” a laboriosidade de Marta e a profundidade mística de Maria.

Em 04 de julho de 1957, em Santa Marinella, serenamente retorna para sempre ao Cristo, seu Esposo, deixando no coração de todos uma viva recordação do seu amor e da sua santidade.

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